No cotidiano das instituições de justiça e segurança pública, o modo como a vítima é atendida — seja por falta de orientação, seja por postura inadequada de agentes — pode reduzir danos, promover segurança ou produzir novas camadas de sofrimento, configurando revitimização e afetando a disposição da mulher em denunciar, perseverar no processo ou buscar proteção.
Mariana, 29 anos, procurou uma delegacia para registrar ocorrência contra seu ex-companheiro por ameaças, perseguição e agressões no contexto da violência doméstica. Ela relata que já havia tentado buscar ajuda anteriormente, mas desistiu após ouvir comentários, como “se voltou, é porque gosta”, “isso é briga de casal” e “você deve ter provocado”.
No atendimento atual, um agente questiona por que ela “não saiu antes” e solicita que Mariana “conte tudo novamente” na frente de outras pessoas. Ao final, ela deixa a unidade sem orientação clara sobre os próximos passos em relação às medidas protetivas de urgência e à ação penal, ficando com medo de represálias.
Nas redes sociais e em grupos da comunidade, circulam comentários culpabilizando a vítima e naturalizando a violência (“ela sabia com quem estava”). Dias depois, o agressor descumpre as medidas impostas e volta a procurá-la, dessa vez ameaçando-a de morte.
Fonte: FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2025. Disponível em: https://publicacoes.forumseguranca.org.br/handle/123456789/279. Acesso em: 9 mar. 2026.